Teatro para turista ver…

Clara Silva | Revista Sábado /

…mas onde estão os turistas? The Portuguese é a primeira peça feita a pensar nos estrangeiros que visitam Lisboa e é para estar em cena por tempo indefinido.

Um casal de turistas perde as malas logo depois de aterrar em Lisboa e a partir dai vive uma série de peripécias.
Ora encontram Dom Afonso Henriques e a mãe no metro, ora se cruzam com Dom Sebastião que lhes explica a batalha de Alcácer-Quibir com pauliteiros de Miranda, ora estão sentados n’A Brasileira, no Chiado, na estátua de Fernando Pessoa, que afinal se mexe e se apresenta com todos os seus heterónimos.

Há Amália a cantar o fado em Alfama com Camões a assistir, um casal local que se insulta em bom português enquanto os turistas protagonistas tentam decifrar e até Ronaldo, com pressa para uma sessão fotográfica em roupa Interior.

Pelo meio também há a Padeira de Aljubarrota a cantar Spice Girls. Napoleão preparado para a quarta invasão francesa, mas sem conseguir encontrar casa, os Descobrimentos com caravelas que são banheiras com pés, um tuk-tuk e até um novo verbo para a língua inglesa. to desenrascate.

É assim o Portugal de The Portuguese, o musical que se estreou a 13 de janeiro no Auditório dos Oceanos do Casino de Lisboa e que quer fazer parte do roteiro turístico da cidade. A peça é falada (e cantada) em inglês e
o empresário Miguel Ribeiro Ferreira (conhecido por ser um dos investidores do Shark Tank português) é um dos mentores.

“A ideia começou com um telefonema em Dezembro de 2015”, conta à SÁBADO Ana Brito e Cunha, directora artística de The Portuguese. “[Houve] um conjunto de pessoas que quiseram investir na cultura em Portugal, porque sentiam um grande buraco nesta área do turismo. Hoje em dia estamos cheios de turistas, temos uma história incalculável, fomos
donos do mundo, e surge dai a ideia de fazer uma comédia, entretenimento puro.”
Atenção, fica o aviso: “Isto não é uma aula de História. É entretenimento puro”, repete Ana. “Através de figuras históricas, salientamos as características mais fortes dos portugueses.”

Uma delas é tão difícil de explicar que Filipe Homem Fonseca e Rui Cardoso Martins, os autores
da peça e também autores de êxitos como Conversa da Treta, tiveram de inventar uma nova expressão para o dicionário de Oxford: “Desenrascate yourself” “É o nosso espírito de desenrasque”, traduz a directora artística.
“[Nisso] ninguém nos bate. Na capacidade de resolver problemas no momento em que eles surgem sem planificação, muitas vezes melhor do que aquilo que poderia ser planeado.”

Farinha do mesmo saco

Os mais atentos também vão encontrar outras expressões traduzidas de propósito à letra como “farinha do mesmo saco” — qualquer coisa como “flour from the same sac”.”É muito português e muito engraçado”, diz Ana.
Muito português, tal como a plateia que encheu as primeiras sessões do musical, apesar do horário (as terças, quintas e sábados às 18h30) e do preço (€39 por pessoa).
“Temos a consciência de que estamos em época baixa de turismo”, afirma Ana. “Temos tido alguns turistas na sala, mas a maioria são portugueses. Os turistas vão vindo aos poucos.”

O tipo da porta

A plateia tem sido portuguesa, com um ou outro estrangeiro à mistura, a maior parte a viver em Portugal. É o caso do polaco Victor Vorski. que se mudou há três meses de Londres para a Ericeira com a mulher, com o objectivo de encontrar uma aldeia abandonada no País e construir “um grande projecto”, diz. “Na verdade, a irmã de uma amiga nossa é uma das actrizes da peça. por isso estamos aqui”. ri-se.
No final da peça, que dura uma hora e meia, destaca as “canções pop”, de Madonna a ABBA, que consegue reconhecer “no meio dos pedaços de História”. “Aprendi algumas coisas sobre os poetas e as figuras do País, mas talvez para os
portugueses isso seja mais engraçado”, opina. “Podem relacionar-se com isso de uma maneira mais profunda.” Por exemplo? “Com o tipo da porta [Martim Moniz].”

Entre os melhores momentos da peça, ficou-lhe na cabeça “a rapariga do fado”, no papel de Amália. “[A música] durou uns 30 segundos. É pena porque era muito boa. Gostava que tivesse havido canções maiores, foram demasiado curtas e havia muito bons cantores ali.”

Rapariga do fado

No casting para os actores do musical (ao todo são 12, todos portugueses), entre os requisitos estava serem
“actores-cantores” e ter um excelente nível de inglês, refere Ana Brito e Cunha.
“Alguns estudaram fora, outros não. Alguns já tinham desistido da profissão por ser tão difícil e decidiram dar uma última oportunidade e ainda bem que o fizeram.” É o caso de Joana França. no papel de Padeira de Aljubarrota. que há oito anos tinha desistido de ser actriz.

Edward, do Luxemburgo. que prefere não revelar o apelido. foi ver a peça por sugestão de uma amiga e também destaca “a rapariga do fado”. “Tem urna voz Incrível”, comenta.
Quanto ao resto, refere o “sentido de humor” e a “cena das banheiras”. “Gostei também da parte do terramoto
de 1755. Um acontecimento trágico, incluído de uma maneira engraçada.
Tinha estado a ler sobre isso hoje de manhã e reconheci.”

Alexis Shields e Shannon Graybil, duas norte-americanas a viver em Lisboa há dois e quatro anos, dizem ter-se “rido às gargalhadas”. “Senti-me uma insider com algumas piadas”. conta Shannon. que gere uma escola de programação
em Lisboa. “Com o desenrascar, que não consegues traduzir e é muito português. Trabalho aqui, já experienciei isso e tenho muito respeito por isso agora”, ri-se.

Além da localização, que “podia ser mais central”, a única coisa que mudariam na peça era haver um “panfleto” à entrada que resumisse um pouco a História de Portugal.
“Para que os meus amigos e familiares percebessem tudo”. diz Mexis.

“Sim”, apoia Shannon “Os Descobrimentos e o império português, por exemplo. Só aprendi isso depois de viver cá.”
Há tempo para melhorar enquanto não chegam autocarros cheios de turistas, até porque se tudo correr bem
The Portuguese não tem data de fim, diz Ana Brito e Cunha. “Os turistas vão e vêm e nós viemos para ficar.”

Além dos mupis, que vão ser espalhados por pontos estratégicos da cidade, e da comunicação feita em hotéis e na Imprensa estrangeira, a peça vai ter uma parceria com os autocarros da Cityrama, “com uma rota específica para virem ao teatro”, adianta.
Por enquanto, e com tantos portugueses a assistir, a produção teve de dar verdadeiro uso à fama do “desenrascare”.

Nos próximos espectáculos, a peça terá legendas – para português ver – que inicialmente não estavam previstas.

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